segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Questionário



Ana postou
Questionou sondou
"Que ele me responda"
Comentei
E agora me dei
Falei
Revelei
Confessei
Nem pensei
Pois sei
Que só sei
Ficar encantado...

Ana,
Se ele eu fosse
Responderia diferente
In off via correio e-mail
Reservadamente
Mas como ele não sou
Respondo publicamente

.Qual o tamanho da paz?
É do tamanho do esboço infinitamente lindo de um nenem dormindo
.Quais os limites do corpo?
São os limites tênues delimitados pelo aconhego de um abraço bem apertado
.Qual a palavra que faz sentido?
Afinidade. Faz muito sentido faz a diferença na minha idade
.Saudades de quê?
Do gosto gostoso de um primeiro beijo
.Vontade de quê?
De sentir o gosto de um primeiro beijo gostoso
.O que se ganha com o tempo?
A consciência que se ganhou
.Por que vale à pena sonhar?
Porque os sonhos dão a sensação que eles se realizarão
.O que tu vês no espelho?
O projeto por meus antepassados imaginado concretizado
.O que o espelho vê?
Cabeça corpo membros e um sorriso maroto
.Tua mão sabe tocar o quê?
O ombro de quem precisa e quer ser tocado
.Tua pele arde de que jeito?
Do jeito mineiro (fica ruborizada) ao ter de responder pergunta que deixa a gente "distreinado"
.Por que a lágrima lava a alma?
Porque a alma suja desidratada é lavada irrigada com a àgua pelo coração fabricada
.Por que a alma chora?
Porque precisa expelir traição decepção falta de opção que causam intoxicação deterioração
.Até onde chega o teu silêncio?
Ao limite da tortura. Ao confessionário.
.Quem ouve teu grito?
Meu coração (que não tem ouvidos)
.O teu sono te leva pra onde?
Pra longe longe muito além dos meus sonhos dos meus pesadelos
.Tua dor rima com amor?
Não. Minha dor rima com pavor e meu amor rima com pudor. As palavras rimam mas não combinam.
.Teu sexo tem nexo?
Tem. E anatomicamente fico perplexo e me dou um ósculo e um amplexo.
.Qual tua incoerência?
Não saber falar das minhas coerências
.O que te assusta?
Rojão em Noite de São João. Trovão
.Do que tens medo?
De ficar perdido sozinho numa ilha perder filho filha
.De onde vem tua coragem?
Da vontade de sobreviver pra ver nascer e crescer os que vão continuar a me perpetuar
.O que te aprisiona?
#t#i#m#i#d#e#z#
.O que te liberta?
A divina canjibrina quando usada por exemplo na receita da caipilima

Abraço questionador

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Consertando o Mundo

video


Um cientista vivia preocupado com os problemas do mundo e estava resolvido a encontrar meios de minorá-los.
Passava dias e dias em seu escritório em busca de respostas para suas dúvidas.
Certo dia, seu filho de sete anos invadiu seu santuário decidido a ajudá-lo a trabalhar.
O cientista nervoso pela interrupção, tentou que o filho fosse brincar em outro lugar.
Vendo que seria impossível demovê-lo, o pai procurou algo que pudesse ser proposto ao filho com o objetivo de distrair sua atenção.
De repente deparou-se com numa revista com o mapa do mundo, o que procurava!
Com o auxilio de uma tesoura, recortou o mapa-mundi em vários pedaços e, junto com um rolo de fita adesiva, entregou ao filho dizendo:
- Você gosta de quebra-cabeças? Então vou lhe dar o mundo para consertar. Aqui esta o mundo todo separado, aos pedaços. Veja se consegue consertá-lo bem direitinho! Faça tudo sozinho.
Calculou que a criança levaria dias e dias para recompor o mapa, talvez nem conseguisse.
Menos de uma hora depois ouviu a voz do filho que o chamava calmamente:
- Pai, já fiz tudo. Conseguí terminar!
A princípio o pai não deu crédito às palavras do filho. Seria impossível na sua idade ter conseguido recompor um mapa que jamais havia visto e tão depressa.
Relutante, o cientista levantou os olhos de suas anotações, certo de que veria um trabalho digno de uma criança. Para sua surpresa, o mapa estava completo. Todos os pedaços haviam sido colocados nos devidos lugares.
Como seria possível? Como o menino havia sido capaz?
- Você não sabia como era o mapa do mundo, meu filho, como conseguiu?
- Pai, eu não sabia como era o mundo, mas quando você tirou a folha da revista para recortar, eu vi que do outro lado havia a figura de um homem. Quando você me deu o mundo para consertar, eu tentei mas não consegui. Foi ai que me lembrei do homem, virei os recortes e comecei a consertar o homem que eu sabia como era. Quando consegui consertar o homem, virei a folha e vi que havia consertado o mundo.
(Desconheço a autoria)

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Mau humor




Mau humor
(Lula Vieira - publicitário)

Não me lembro direito, mas li numa revista, acho que na Carta Capital, um artigo levantando a hipótese de que todo o cara que tem mania de fazer aspas com os dedinhos quando faz uma ironia é um chato. Num outro artigo alguém escreveu que achava que jamais tinha conhecido um restaurante de boa comida com garçons vestidos de coletinho vermelho. Joaquim Ferreira dos Santos, em "O Globo" de domingo, fala do seu profundo preconceito com quem usa "agregar valor". Eu posso jurar que toda mulher que anda permanentemente com uma garrafinha de água e fica mamando de segundo
em segundo é uma chata. São preconceitos, eu sei. Mas cada vez mais a vida está confirmando estas conclusões.

Um outro amigo meu jura que um dos maiores indícios de babaquice é usar o paletó nos ombros, sem os braços nas mangas. Por incrível que pareça, não consegui desmentir. Pode ser coincidência, mas até agora todo cara que eu me lembro de ter visto usando o paletó colocado sobre os ombros é muito babaca.

Já que estamos nessa onda, me responda uma coisa: você conhece algum natureba radical que tenha conversa agradável? O sujeito ou sujeita que adora uma granola, só come coisas orgânicas, faz cara de nojo à simples menção da palavra "carne", fica falando o tempo todo em vida saudável é seu ideal como companhia numa madrugada? Sei lá, não sei. Não consigo me lembrar de ninguém assim que tenha me despertado muita paixão.

Eu ando detestando certos vícios de linguagem, do tipo "chegar junto", "superar limites", essas bobagens que lembram papo de concorrente a big brother. Mais uma vez, repito: acho puro preconceito, idiossincrasia, mas essa rotulagem imediata é uma mania que a gente vai adquirindo pela vida e que pode explicar algumas antipatias gratuitas.

Tem gente que a gente não gosta logo de saída, sem saber direito porquê. Vai ver que transmite algum sintoma de chatice. Tom de voz de operador de telemarketing lendo o script na tela do computador e repetindo a cada cinco palavras a expressão "senhoooorrr" me irrita profundamente.

Se algum dia eu matar alguém, existe imensa possibilidade de ser um flanelinha. Não posso ver um deles que o sangue sobe à cabeça. Deus que me perdoe, me livre e me guarde, mas tenho raiva menor do assaltante do que do cara que fica na frente do meu carro fazendo gestos desesperados tentando me ajudar em alguma manobra, como se tivesse comprado a rua e tivesse todo o direito de me cobrar pela vaga.

Sei que estou ficando velho e ranzinza, mas o que se há de fazer? Não suporto especialista em motivação de pessoal que obrigue as pessoas
a pagarem o mico de ficar segurando na mão do vizinho, com os olhos fechados e tentando receber "energia positiva".

Aliás, tenho convicção de que empresa que paga bons salários e tem uma boa e honesta política de pessoal não precisa contratar palestras de motivação para seus empregados. Eles se motivam com a grana no fim do mês e com a satisfação de trabalhar numa boa empresa.

Que me perdoem todos os palestrantes que estão ficando ricos percorrendo o país, mas eu acho que esse negócio de trocar fluidos me lembra putaria. E para terminar: existe qualquer esperança de encontrar vida inteligente numa criatura que se despede mandando "um beijo no coração"?

Fiquei um tempo imaginando cada situação citada
Fiz constatação meneio da cabeça gargalhada
Tenho que prestar atenção às pessoas
Que passavam despercebidas
E agora poderão ser associadas
Como protagonista de cada coisa dessa avacalhada

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

A Sandália da humildade




A frase diz muito, mas não diz tudo, sobre a imagem:
"Essa imagem vale por mais de mil palavras"

Sandália (Wikipedia) é um tipo de calçado usado por ambos os sexos e que tem como característica principal deixar a maior parte do pé exposta. Por essa razão, é um calçado usado especialmente no verão ou em regiões de clima quente.
Sandália masculina: os materiais usados na sua confecção podem variar bastante, indo do couro (mais nobre) ao plástico injetado (mais barato).

Sandália de garrafa pet com tiras de tecido colorido. O detalhe da tampa azul da garrafa do refrigerante em diagonal com o detalhe azul da tira de pano pode ter sido coincidência, mas deu o toque pessoal do artesão.

O instrumento usado para aplainar a pet foi certeiro e caprichoso. Fez seu trabalho, amoldou, deu conforto.

Eu acredito no ser humano. A imagem diz.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008



EXAMINANDO, RACIOCINANDO, RACIONALIZANDO, DIAGNOSTICANDO, ACERTANDO, ERRANDO - SIGO TRABALHANDO

A tarefa do diagnóstico sempre me intrigou. Por exemplo, o diagnóstico citológico. A visualização de formas, contornos, cores, detalhes, nuances, matizes, arranjos, formam, numa combinação muito semelhante mas nunca repetida, uma possibilidade, uma hipótese, coerentemente se encaixam, se completam e se tornam uma afirmativa, um ponto de partida, o destino, a decisão final. A estruturação dessa maneira, do modo de fazer, de reconhecer conhecimentos necessários para se fazer, cada vez mais me intriga. A dúvida é parte desse processo, inicialmente na tentativa de comparação com algo similar antes visualizado e em seguida na análise, instantânea, o conhecimento explícito utilizado nesse processo. O processo sintetiza o tempo de estudo, - anos, décadas - habilidades, experiência, de estruturação, concentrada em minutos de definição. Nada de inspiração, só transpiração. E a dúvida me inspira - um dia pensei que desapareceria - continua minha parceira, companheira. Me estimula a atualizar, reler. É meu parâmetro de integridade cognitiva. Se um dia ela for embora, saberei, Deus permita perceber, que não posso mais continuar sem Dúvida.

sábado, 22 de novembro de 2008

Trios importantes - Chico Xavier




Três verbos importantes existem que, bem conjugados, serão lâmpadas luminosas em nosso caminho:
aprender
servir
cooperar.

Três atitudes exigem muita atenção:
analisar
reprovar
reclamar

De três normas de conduta jamais nos arrependeremos:
auxiliar com a intenção do bem
silenciar
pronunciar frases de bondade e estímulo.

Três diretrizes manter-nos-ão invariavelmente em rumo certo:
ajudar sem distinção
esquecer todo mal
trabalhar sempre

Três posições devemos evitar sempre:
maldizer
condenar
destruir

Possuímos três valores que, depois de perdidos, jamais serão recuperados:
a hora que passa
a oportunidade de elevação
a palavra falada

Três programas sublimes se desdobram a nossa frente, revelando-nos a Glória da Vida Superior
amor
humildade
bom ânimo

Para que possamos efetivamente evoluir, devemos seguir sempre as três abençoadas regras de salvação:
corrigir em nós o que nos desagrada nos outros
amparar-nos mutuamente
amar-nos uns aos outros

E lembrar que jamais devemos culpar alguém por aquilo que nos acontece, pois somos responsáveis por tudo de bom ou de mal que surgir em nosso caminho... sempre!

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

A irmã do gnomo - João Paulo Duarte (3/10/2008)



Ana se vê quando ainda tinha três anos. Foto velha, em preto e branco, do fim dos anos 50. Óculos escuros de haste branca, bem grandes se comparados àquela cabecinha, e os olhinhos castanhos, bem claros, que estavam por trás. Uma princesinha naquele vestidinho branco com rendas na gola, bem simples. E com um laçarote amarrado na cintura. O sorriso que precedia a vida toda.

A partir daquela época, Ana lembrava-se de tudo.

Aos três anos – talvez antes – ela já tinha percebido o que seus pais demoraram muito tempo: era diferente do irmão. Menina arguta desde sempre, curiosa, muito comportada. Venerava e amava a mãe, e a ajudava nos cuidados com o irmão, um ano mais velho. O irmãozinho não sabia de quase nada, falava mal, tinha problemas com a coordenação motora e dificuldade em aprender. Ficava só observando os aviões. A pequena Ana percebeu que entendia tudo o que o irmão não sabia.

Dois anos depois, os pais foram para o exterior com o irmãozinho. Ana ficou sozinha. (Entendeu que a solidão não tinha nada a ver com abandono. A menina tinha os cuidados da avó e da governanta da casa, e toda a sorte de mimos, mas ficou sozinha. Era impossível entender por que a mãe se foi e levou o pai e o irmãozinho.) E assim passou quase um ano. Quando acordava, corria da cama pro berço do irmão mais novo – que contava menos de um ano. Tinha medo de que ele fosse também, e só ela restasse. Ana não se sentia mal por não ter viajado, ela apenas não entendia porque precisava ficar sozinha.

Quando os pais e o irmãozinho voltaram pra casa, Ana saltou de susto. O coraçãozinho tilintou novamente. (Pouco antes, ela fizera questão de vestir o vestido que mais amava, com meiazinhas brancas e o sapatinho branco daqueles que tem uma fivelinha, bem pequena. Arrumara a bonequinha – “o bebê” – também.) O ar lhe faltou e quase caiu enquanto tentava correr o mais rápido possível pela grama do quintal. Depois do abraço com toda força nas pernas da mãe, e dos beijos que dava no rosto dela – após ser levantada –, ainda no colo, procurou o irmão. Ele estava lá. De camisa de botão, short cinza, suspensório, e uns sapatinhos pretos brilhantes. Quando desceu do colo, beijou o pai, pegou o irmão pela mão e o levou no quintal pra mostrar que estava tudo limpinho, bem bonito pra eles. O menino sorriu e perguntou se o caminhão da Kibon já tinha passado.

Ana não se importava em brincar com o irmão diferente e sempre sentiu que precisava cuidar do menino que não conseguia ler – tinha os olhos tortinhos – e era até bonitinho na feiúra do rosto de gnomo. Quando passeavam na vila – tinham entorno de seis anos –, Ana ia à frente e o irmãozinho vinha a passos curtos e na ponta dos pés, bem engraçado. Quando passava um avião ele parava – fazendo um balanço característico de uma perna pra outra, exprimindo felicidade – e o ficava procurando no céu. Ela voltava, ficava do lado dele, e fingia que procurava também. A menina era uma graça olhando pra cima, os cabelos bem lourinhos, lisinhos, caindo pelos olhos. Após a euforia do irmãozinho, ela lhe perguntava se podia continuar o passeio. Ele sempre aceitava. Chegavam à banca de jornal e Aninha comprava gibi e ficava lendo pro irmãozinho. Aninha adorava ler pro irmão. Voltavam pra casa, de mãos dadas, a tempo pro almoço.

De tardinha, o irmãozinho ficava no portão esperando o vendedor de cachorro-quente, ou o vendedor de sorvetes. Aninha ficava também na varanda, arrumando as bonecas. Depois do sorvete, era a vez de esperar o pai chegar do trabalho.

Aninha conversava com o irmão um monte de coisas. Ele gostava de falar de bateria, batedeira, máquina de polir, avião, trator e de ficar imaginando quanto tempo demoraria pra chegar as horas do almoço, de dormir, do dia amanhecer e de acordar. Ela gostava de falar de outras coisas. Mas tinha paciência pra falar das coisas dele. Ele gostava muito de falar sozinho também. Ela também não se importava.

Enquanto guarda a foto, com o sorriso no rosto, Ana (que, nos anos que a separam da foto, cresceu, chorou, sorriu, estudou, namorou, casou, teve filhos, trabalhou, estudou, chorou, sorriu, criou os filhos…) fica emocionada de verdade, e se sente meio sozinha de tudo que foi embora e de tudo que poderia ter sido. Logo mais, à noite, o irmãozinho vai ligar e falar de bateria, batedeira, máquina de polir, avião, trator e perguntar quanto tempo vai demorar pra o dia amanhecer e que horas vai acordar.

domingo, 19 de outubro de 2008

AFINIDADE


Arthur da Távola (Paulo Alberto Moretzsohn Monteiro de Barros)

A afinidade não é o mais brilhante, mas o mais sutil, delicado e penetrante dos sentimentos. É o mais independente.
Não importa o tempo, a ausência, os adiamentos, as distâncias, as impossibilidades.
Quando há afinidade, qualquer reencontro retoma a relação, o diálogo, a conversa, o afeto no exato ponto em que foi interrompido.

Afinidade é não haver tempo mediando a vida.
É uma vitória do adivinhado sobre o real.
Do subjetivo para o objetivo.
Do permanente sobre o passageiro.
Do básico sobre o superficial.

Ter afinidade é muito raro.
Mas quando existe não precisa de códigos verbais para se manifestar.
Existia antes do conhecimento, irradia durante e permanece depois que as pessoas deixaram de estar juntas.
O que você tem dificuldade de expressar a um não afim, sai simples e claro diante de alguém com quem você tem afinidade.

Afinidade é ficar longe pensando parecido a respeito dos mesmos fatos que impressionam, comovem ou mobilizam.
É ficar conversando sem trocar palavras.
É receber o que vem do outro com aceitação anterior ao entendimento.

Afinidade é sentir com, nem sentir contra, nem sentir para, nem sentir por, nem sentir pelo.
Quanta gente ama loucamente, mas sente contra o ser amado.
Quantos amam e sentem para o ser amado, não para eles próprios.

Sentir com é não ter necessidade de explicar o que está sentindo.
É olhar e perceber.
É mais calar do que falar, ou, quando é falar, jamais explicar: apenas afirmar.

Afinidade é jamais sentir por.
Quem sente por, confunde afinidade com masoquismo.
Mas quem sente com, avalia sem se contaminar.
Compreende sem ocupar o lugar do outro.
Aceita para poder questionar.
Quem não tem afinidade, questiona por não aceitar.

Afinidade é ter perdas semelhantes e iguais esperanças.
É conversar no silêncio, tanto nas possibilidades exercidas quanto das impossibilidade vividas.

Afinidade é retomar a relação no ponto em que parou sem lamentar o tempo de separação.
Porque tempo e separação nunca existiram.
Foram apenas oportunidades dadas (tiradas) pela vida, para que a maturação comum pudesse se dar.
E para que cada pessoa pudesse e possa ser, cada vez mais a expressão do outro
sob a forma ampliada do eu individual aprimorado.

domingo, 5 de outubro de 2008

Cora Coralina, quem é você?


Sou mulher como outra qualquer.
Venho do século passado
e trago comigo todas as idades.

Nasci numa rebaixa de serra
entre serras e morros.
"Longe de todos os lugares".
Numa cidade de onde levaram
o ouro e deixaram as pedras.

Junto a estas decorreram
a minha infância e adolescência.
Aos meus anseios respondiam
as escarpas agrestes.
E eu fechada dentro
da imensa serrania
que se azulava na distância
longínqua.

Numa ânsia de vida eu abria
o vôo nas asas impossíveis
do sonho.

Venho do século passado.
Pertenço a uma geração
ponte, entre a libertação
dos escravos e o trabalhador livre.
Entre a monarquia
caída e a república
que se instalava.

Todo o ranço do passado era presente
A brutalidade, a incompreensão,
a ignorância, o carrancismo.

Os castigos corporais
Nas casas. Nas escolas.
Nos quartéis e nas roças.
A criança não tinha vez,
Os adultos eram sádicos
aplicavam castigos humilhantes.

Tive uma velha mestra que já
havia ensinado uma geração
antes da minha.

Os métodos de ensino eram
antiquados e aprendi as letras
em livros superados de que
ninguém mais fala.

Nunca os algarismos me
entraram no entendimento.
De certo pela pobreza que marcaria
para sempre minha vida.
Precisei pouco dos números.

Sendo eu mais doméstica do
que intelectual,
não escrevo jamais de forma
consciente e raciocinada, e sim
impelida por um impulso incontrolável.
Sendo assim, tenho a
consciência de ser autêntica.

Nasci para escrever, mas o meio,
o tempo, as criaturas e fatores
outros contramarcaram minha vida.

Sou mais doceira e cozinheira
do que escritora, sendo a culinária
a mais nobre de todas as Artes:
objetiva, concreta, jamais abstrata
a que está ligada à vida
e à saúde humana.

Nunca recebi estímulos familiares para ser literata.
Sempre houve na família, senão uma
hostilidade, pelo menos uma reserva determinada
a essa minha tendência inata.
Talvez, por tudo isso e muito mais,
sinta dentro de mim, no fundo dos meus
reservatórios secretos, um vago desejo de
analfabetismo.

Sobrevivi, me recompondo aos
bocados, à dura compreensão dos
rígidos preconceitos do passado.

Preconceitos de classe.
Preconceitos de cor e de família.
Preconceitos econômicos.
Férreos preconceitos sociais.

A escola da vida me experimentou
as deficiências da escola primária
que outras o Destino não me deu.

Foi assim que cheguei a este livro
sem referências a mencionar.
Nenhum primeiro prêmio.
Nenhum segundo lugar.
Nem Menção Honrosa.
Nenhuma Láurea.

Apenas a autenticidade da minha
poesia arrancada aos pedaços
do fundo da minha sensibilidade,
e este anseio:
procuro superar todos os dias
minha própria personalidade
renovada,
despedaçando dentro de mim
tudo que é velho e morto.

Luta, a palavra vibrante
que levanta os fracos
e determina os fortes,

Quem sentirá a Vida
destas páginas...
Gerações que hão de vir
de gerações que vão nascer.

sábado, 27 de setembro de 2008

Olhem o que eu achei...











Você foi o maior dos meus casos
de todos os abraços o que eu nunca esqueci
você foi dos amores que eu tive
o mais complicado e o mais simples pra mim.
Você foi o melhor dos meus erros
a mais estranha história que alguém já escreveu
e é por essas e outras que a minha saudade
faz lembrar de tudo outra vez.
Você foi a mentira sincera
brincadeira mais séria que me aconteceu
você foi o caso mais antigo
o amor mais amigo que me apareceu
Das lembranças que eu trago na vida
você é a saudade que eu gosto de ter
só assim sinto você bem perto de mim outra vez.
Esqueci de tentar te esquecer
resolvi te querer por querer
decidi te lembrar quantas vezes eu tenha vontade
sem nada perder.
Você foi toda a felicidade
você foi a maldade que só me fez bem
você foi o melhor dos meus planos
e o pior dos enganos que eu pude fazer
das lembranças que eu trago na vida
você é a saudade que eu gosto de ter
só assim sinto você bem perto de mim
outra vez.
Roberto Carlos

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

PRAZER PELA METADE - Leila Ferreira




Não há nada que me deixe mais frustrada do que pedir sorvete de sobremesa, contar os minutos até ele chegar e aí ver o garçom colocar na minha frente uma bolinha minúscula do meu sorvete preferido - uma só. Quanto mais sofisticado o restaurante, menor a porção da sobremesa. Aí a vontade que dá é de passar numa loja de conveniência, comprar um pote de sorvete bem cremoso e saborear em casa com direito a repetir quantas vezes a gente quiser, sem pensar em calorias, boas maneiras ou moderação.
O sorvete é só um exemplo do que tem sido nosso quotidiano. A vida anda cheia de meias porções, de prazeres meia-boca, de aventuras pela metade. A gente sai pra jantar, mas come pouco. Vai à festa de casamento, mas resiste aos bombons. Conquista a chamada liberdade sexual, mas tem que fingir que é difícil (a imensa maioria das mulheres continua com pavor de ser rotulada de 'fácil'). Adora tomar um banho demorado, mas se contém pra não desperdiçar os recursos do planeta. Quer beijar aquele cara 20 anos mais novo, mas tem medo de fazer papel ridículo. Tem vontade de ficar em casa vendo um DVD, esparramada no sofá, mas se obriga a ir malhar. E por aí vai.
Tantos deveres, tanta preocupação em 'acertar', tanto empenho em passar na vida sem pegar recuperação... Aí a vida vai ficando sem tempero, politicamente correta e existencialmente sem-graça, enquanto a gente vai ficando melancolicamente sem tesão. Às vezes, dá vontade de fazer tudo 'errado' - deixar de lado a régua, o compasso, a bússola, a balança e os 10 mandamentos. Ser ridícula, inadequada, incoerente e não estar nem aí pro que dizem e o que pensam a nosso respeito. Recusar prazeres incompletos e meias porções.
Até Santo Agostinho, que foi santo, uma vez se rebelou e disse uma frase mais ou menos assim: 'Deus, dai-me continência e castidade, mas não agora'.
Nós, que não aspiramos à santidade e estamos aqui de passagem, podemos (devemos?) desejar várias bolas de sorvete, bombons de muitos sabores, vários beijos bem dados, a água batendo sem pressa no corpo, o coração saciado. Um dia a gente cria juízo. Um dia. Não tem que ser agora. Por isso, garçom, por favor, me traga: cinco bolas de sorvete de coco, um sofá pra eu ver 10 episódios do 'Law and Order', uma caixa de trufas bem macias e o Clive Owen embrulhado pra presente - não necessariamente nessa ordem.
Depois a gente vê como é que faz pra consertar o estrago.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Precisa-se de um amigo


Precisa-se de um amigo
[Vinícius de Moraes]

Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração.

Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir.

Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaros, de sol, de lua, de canto, dos ventos e das canções da brisa.

Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor.

Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo.

Deve guardar segredo sem se sacrificar.

Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão.

Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados.

Não é preciso que seja puro, nem que seja de todo impuro, mas não deve ser vulgar.

Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vazio que isso deixa.

Deve ter ressonâncias humanas, seu principal objetivo deve ser o de ser amigo.

Deve sentir pena das pessoas tristes e compreender o imenso vazio dos solitários.

Deve gostar de crianças e lamentar os que não puderam nascer.

Que saiba conversar de coisas simples, de orvalho, de grandes chuvas e de recordações da infância.

Precisa-se de um amigo para não enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade.

Deve gostar das ruas desertas, de poças de água e dos caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.

Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tenha um amigo.

Precisa-se de um amigo para se parar de chorar.

Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas.

Que bata nos ombros sorrindo e chorando, mas que nos chame de amigo, para se ter consciência de que ainda se vive.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Amizade sem trato


Amizade sem trato
[Martha Medeiros]
Dei pra me emocionar cada vez que falo dos amigos. Deve ser a idade, dizem que a gente fica mais sentimental. Mas é fato: quando penso no que tenho de mais valioso, os amigos aparecem em pé de igualdade com o resto da família. E quando ouço pessoas dizendo que amigo, mas amigo meeeesmo, a gente só tem dois ou três, empino o peito e fico até meio besta de tanto orgulho: eu tenho muito mais do que dois ou três. São uma cambada. Não é privilégio meu, qualquer pessoa poderia ter tantos assim, mas quem se dedica? Fulano é meu amigo, Sicrana é minha amiga. É nada. São conhecidos. Gente que cumprimentamos na rua, falamos rapidamente numa festa, de repente sabemos até de uma fofoca pesada sobre eles, mas amigos? Nem perto. Alguns até chegaram a ser, mas não são mais por absoluta falta de cuidado de ambas as partes.
Amizade não é só empatia, é cultivo. Exige tempo, disposição. E o mais importante: o carinho não precisa - nem deve - vir acompanhado de um motivo.
As pessoas se falam basicamente nos aniversários, no Natal ou para pedir um favor - tem que haver alguma razão prática ou festiva para fazer contato. Pois para saber a diferença entre um amigo ocasional e um amigo de verdade, basta tirar a razão de cena. Você não precisa de uma razão, basta sentir a falta da pessoa. E, estando juntos, tratarem-se bem. Difícil exemplificar o que é tratar bem. Se são amigos mesmo, não precisam nem falar, podem caminhar lado a lado em silêncio. Não é preciso troca de elogios constantes, podem até pegar no pé um do outro, delicadamente. Não é preciso manifestações constantes de carinho, podem dizer verdades duras, às vezes elas são necessárias. Mas há sempre algo sublime no ar entre dois amigos de verdade. Talvez respeito seja a palavra. Afeto, certamente. Cumplicidade? Mais do que cumplicidade. Sintonia? Acho que é amor. Oh, céus! Santa pieguice, Batman! Amor? Esta lengalenga de novo? Sério, só mesmo amando um amigo para permitir que ele se atire no seu sofá e chore todas as dores dele sem que você se incomode nem um pingo com isso. Só mesmo amando para você confiar a ele o seu próprio inferno. E para não invejarem as vitórias um do outro. Por amor, você empresta suas coisas, dá o seu tempo, é honesto nas suas respostas, cuida para não ofender, abraça causas que não são suas, entra numas roubadas, compreende alguns sumiços - mas liga quando o sumiço é exagerado. Tudo isso é amizade com trato. Se amigos assim entraram na sua vida, não deixe que sumam. Porém, a maioria das pessoas não só deixa como contribui para que os amigos evaporem. Ignora os mecanismos de manutenção. Acha que amizade é algo que vem pronto e que é da sua natureza ser constante, sem precisar que a gente dê uma mãozinha. E aí um dia abrimos a mãozinha e não conseguimos contar nos dedos nem dois amigos pra valer. E ainda argumentamos que a solidão é um sintoma destes dias de hoje, tão emergenciais, tão individualistas. Nada disso. A solidão é apenas um sintoma do nosso descaso. A maioria das pessoas não só deixa como contribui para que os amigos evaporem. Ignora os mecanismos de manutenção...
Porto Alegre, 17 de setembro de 2006 - Zero Hora, Edição Nº 14.999

sábado, 13 de setembro de 2008

Quentin Tarantino, Selton Melo, Seu Jorge


Desvendado o Código criado pelo Tarantino. Grande dedução. Selton Melo e Seu Jorge dando show de atuação.

http://www.youtube.com/watch?v=op4byt-DtsI&eurl=http://tillpublicidade.wordpress.com/






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O passado que vive em mim


O passado que vive em mim
José Pedro Goulart - De Porto Alegre (RS) - 12/09/2008

Os primeiros pêlos pubianos que vi na vida foram numa tela de cinema. Acho que eu tinha uns 12 anos. Diga-se que no início dos anos 70 as coisas eram bem mais difíceis do que agora. Naquele tempo tudo era proibido. Eu bem que tinha chegado perto de uma Playboy americana, mas o Paulinho, baita abobado, deixou cair a revista, na aula de português, bem na minha hora de ver.
Fui parar no gabinete do diretor, a revista na mesa como prova, a dois metros de mim. Fechada, enclausurada, que segredos guardaria? Quase cometi uma loucura e a abri ali mesmo, diante do diretor, da professora, do Paulinho, de Deus, mas me segurei. A lembrança da cinta da minha mãe venceu o desejo. Caráter é isso.
Nessa época eu tinha um herói. Não era o Batman, o Super-Homem, o Jorge Luis Borges e muito menos o José de Alencar. Meu herói era o porteiro do cinema Rosário, parte da tarde. Magro feito fósforo, cigarrinho no canto da boca e sem queixo. Se a gente botasse o dinheiro do ingresso do cinema na mão dele, ele usava todos seus superpoderes para que entrássemos escondidos e subíssemos para o mezanino supostamente fechado. Uma vez por lá, a gurizada mergulhava no maravilhoso universo do filme proibido para menores.
Tudo estaria certo não fosse a maldita censura. Bunda só de lado. Seio, um de cada vez; nunca os dois juntos. E bem, o resto nem pensar. Mas aí mesmo é que eu pensava. Como é que seria? Tenho certeza que aquilo me fez virar o obsessivo que hoje sou. Eu também deveria ganhar indenização pelos abusos da ditadura.
As sessões eram segundas, quartas e sextas. Eu ia sempre na segunda. Mas não naquela semana. Nem lembro por quê. Quando foi terça-feira o Gilberto entrou gritando antes da aula: "Aparece sim! Aparece sim!"
Eu digo a vocês, aqui em confidência, que eu tremi antevendo a questão em questão. E o Gilberto confirmou, "a Bisteca aparece pelada!!". A Bisteca, na verdade, era o nome de uma personagem da novela Cavalo de Aço.
"De frente?" Disse eu num fiozinho de voz.
E ele, exibido, se achando, encheu a boca: "De frente". Sofri calado, de frente... Eu não merecia aquilo. Era eu o cara que tinha descoberto a trama toda com o porteiro. Que ia sempre nas segundas. Eu não merecia ter ficado para depois.
Chegou o depois, a quarta-feira, e eu sem dormir. E quem é que NÃO estava lá, no cinema Rosário? Quem? Adivinhão, ele mesmo, o porteiro sem queixo. De modo que tive que ficar sem dormir mais dois dias para então, na sexta, finalmente poder assistir a Cassy Jones, o Magnífico Sedutor. Estrelado pela Sandra Bréa, pelo Paulo José, pela Bisteca e os pêlos pubianos da Bisteca. Fiquei mais um dia sem dormir.
Por que eu me lembrei dessa história? Talvez porque, como disse o Paulinho da Viola certa vez, não é que eu viva no passado. É o passado que vive em mim.

José Pedro Goulart é cineasta e jornalista.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

domingo, 31 de agosto de 2008

Tarde de Maio


Tarde de Maio

Como esses primitivos que
carregam por toda a parte o
maxilar inferior de seus mortos,
assim te levo comigo, tarde de maio,
quando, ao rubor dos incêndios
que consumiam a terra,
outra chama, não perceptível, tão
mais devastadora,
surdamente lavrava sob meus
traços cômicos,
e uma a uma, disjecta membra,
deixava ainda palpitantes
e condenados, no solo ardente,
porções de minha alma
nunca antes nem nunca mais
aferidas em sua nobreza sem fruto.

Mas os primitivos imploram à
relíquia saúde e chuva,
colheita, fim do inimigo, não sei
que portentos.
eu nada te peço a ti,
tarde de maio,
senão que continues, no tempo e
fora dele, irreversível,
sinal de derrota que se vai
consumindo
a ponto de converter-se em sinal
de beleza no rosto de alguém que,
precisamente, volve o rosto e passa...
Outono é a estação em que
ocorrem tais crises,
e em maio, tantas vezes morremos.
Para renascer, eu sei, numa fictícia primavera,
já então espectrais sob o aveludado da casca,
trazendo na sombra a aderência
das resinas fúnebres
com que nos ungiram, e nas
vestes a poeira do carro fúnebre,
tarde de maio, em que desaparecemos,
sem que ninguém, o amor
inclusive, pusesse reparo.
E os que o vissem não saberiam
dizer: se era um préstito lutuoso,
arrastado, poeirento, ou um
desfile carnavalesco.
Nem houve testemunha.
Não há nunca testemunhas.
Há desatentos. Curiosos, muitos.
Quem reconhece o drama,
quando se precipita, sem máscara?
Se morro de amor, todos o ignoram e negam.
O próprio amor se desconhece e maltrata.
O próprio amor se esconde, ao
jeito dos bichos caçados;
não está certo de ser amor, há
tanto lavou a memória
das impurezas de barro e folha
em que repousava.
E resta, perdida no ar, por que
melhor se conserve,
uma particular tristeza, a imprimir
seu selo nas nuvens.
C. Drummond de Andrade

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Você tem que ter um amante!


"Hay que buscarse un Amante"
[Dr. Jorge Bucay - Psicólogo]
Muitas pessoas têm um amante e outras gostariam de ter um. Há também as que não têm, e as que tinham e perderam. Geralmente são essas últimas as que vêm ao meu consultório para me contar que estão tristes ou que apresentam sintomas típicos de insônia, apatia, pessimismo, crises de choro ou as mais diversas dores. Elas me contam que suas vidas transcorrem de forma monótona e sem perspectivas, que trabalham apenas para sobreviver e que não sabem como ocupar seu tempo livre.
Enfim, são várias as maneiras que elas encontram para dizer que estão simplesmente perdendo a esperança. Antes de me contarem tudo isto, elas já haviam visitado outros consultórios, onde receberam as condolências de um diagnóstico firme: "depressão", além da inevitável receita do anti-depressivo do momento. Assim, após escutá-las atentamente, eu lhes digo que elas não precisam de nenhum anti-depressivo; digo-lhes que elas precisam de um AMANTE!
É impressionante ver a expressão dos olhos delas ao receberem meu conselho. Há as que pensam: "Como é possível que um profissional se atreva a sugerir uma coisa dessas?!" Há também as que, chocadas e escandalizadas, se despedem e não voltam nunca mais. Àquelas, porém, que decidem ficar e não fogem horrorizadas, eu explico o seguinte: "AMANTE é "aquilo que nos apaixona".
É o que toma conta do nosso pensamento antes de pegarmos no sono e é também aquilo que, às vezes, nos impede de dormir.
O nosso AMANTE é aquilo que nos mantém distraídos em relação ao que acontece à nossa volta. É o que nos mostra o sentido e a motivação da vida. Às vezes encontramos o nosso amante em nosso parceiro, outras, em alguém que não é nosso parceiro, mas que nos desperta as maiores paixões e sensações incríveis.
Também podemos encontrá-lo na pesquisa científica ou na literatura, na música, na política, no esporte, no trabalho, na necessidade de transcender espiritualmente, na boa mesa, no estudo ou no prazer obsessivo do passatempo predileto...
Enfim, é "alguém" ou "algo" que nos faz "namorar" a vida e nos afasta do triste destino de "ir levando". E o que é "ir levando"? Ir levando é ter medo de viver. É o vigiar a forma como os outros vivem, é o se deixar dominar pela pressão, perambular por consultórios médicos, tomar remédios multicoloridos, afastar-se do que é gratificante, observar decepcionado cada ruga nova que o espelho mostra, é se aborrecer com o calor ou com o frio, com a umidade, com o sol ou com a chuva. Ir levando é adiar a possibilidade de desfrutar o hoje, fingindo se contentar com a incerta e frágil ilusão de que talvez possamos realizar algo amanhã. Por favor, não se contente com "ir levando"; procure um amante, seja também um amante e um protagonista da SUA VIDA...
Acredite: o trágico não é morrer; afinal a morte tem boa memória e nunca se esqueceu de ninguém. O trágico é desistir de viver; por isso, e sem mais delongas, procure um amante...
A psicologia, após estudar muito sobre o tema, descobriu algo transcendental:
"PARA SE ESTAR SATISFEITO, ATIVO E SENTIR-SE JOVEM E FELIZ, É PRECISO NAMORAR A VIDA".

domingo, 10 de agosto de 2008

Lígia



Ligia - Tom Jobim

Eu nunca sonhei com você
Nunca fui ao cinema
Não gosto de samba
Não vou à Ipanema
Não gosto de chuva
Nem gosto de sol
E quando eu lhe telefonei
Desliguei, foi engano.
Seu nome eu não sei,
Esquecí no piano as bobagens de amor
Que eu iria dizer
Não, Lígia, Lígia.

Eu nunca quis tê-la ao meu lado
Num fim de semana
Um chop gelado em Copacabana
Andar pela praia até o Leblon

E quando eu me apaixonei
Não passou de ilusão
O seu nome rasguei
Fiz um samba-canção
Das mentiras de amor
Que aprendí com você.
Lígia, Lígia.

E quando você me envolver nos seus braços serenos
Eu vou me render
Mas seus olhos morenos
Me metem mais medo
Que um raio de sol
Ligia, Ligia.


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